domingo, 28 de março de 2010

Figura Ilustre de Vila Real



Miguel Torga

Oriundo de uma família humilde de Sabrosa, era filho de Francisco Correia Rocha e Maria da Conceição Barros. Em 1917, aos dez anos, foi para uma casa apalaçada do Porto, habitada por parentes da família. Fardado de branco, servia de porteiro, moço de recados, regava o jardim, limpava o pó, polia os metais da escadaria nobre e atendia campainhas. Foi despedido um ano depois, devido à constante insubmissão. Em 1918 foi mandado para o Seminário de Lamego, onde viveu um dos anos cruciais da sua vida. Estudou Português, Geografia e História, aprendeu latim e ganhou familiaridade com os textos sagrados. Pouco depois comunicou ao pai que não seria padre.
Emigrou para o Brasil em 1919, com quinze anos, para trabalhar na fazenda do tio, proprietário de uma exploração de café. O tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais, em Leopoldina. Distingue-se como um aluno dotado. Em 1925, na convicção de que ele havia de vir a ser doutor em Coimbra, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco anos de serviço - o que levou ao seu regresso a Portugal.
Em 1928 entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro livro de poemas, Ansiedade. Em 1929, com vinte e dois anos, deu início à colaboração na revista Presença, folha de arte e crítica, com o poema Altitudes. A revista, fundada em 1927 pelo grupo literário avançado de José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, era bandeira literária do grupo modernista e era também, bandeira libertária da revolução Modernista. Em 1930 rompe definitivamente com a revista Presença, por «razões de discordância estética e razões de liberdade humana».
É bastante crítico da praxe e das restantes tradições académicas, e chama depreciativamente «farda» à capa e batina, mas ama a cidade de Coimbra, onde viria também a exercer a sua profissão de médico a partir de 1939 e onde escreve a maioria dos seus livros. Em 1933 concluiu a licenciatura em Medicina, com apoio do tio do Brasil. Começou a exercer a profissão nas terras agrestes transmontanas, de resto, o pano de fundo de grande parte da sua obra.
Casou-se com Andrée Crabbé em 1940, uma estudante belga que, enquanto aluna de Estudos Portugueses, com Vitorino Nemésio em Bruxelas, viera a Portugal fazer um curso de verão na Universidade de Coimbra. O casal teve uma filha, Clara Rocha, nascida a 3 de Outubro de 1955, e divorciada de Vasco Graça Moura.

A origem do pseudónimo
Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha autodefine-se pelo pseudónimo que criou, "Miguel" e "Torga". Miguel, em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Já Torga é uma planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo. A sua campa rasa em São Martinho de Anta tem uma torga plantada a seu lado, em honra ao poeta.

A obra de Torga

A obra de Torga tem um carácter humanista: criado nas serras trasmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da Natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da Natureza: sem o homem, não haveria searas, não haveria vinhas, não haveria toda a paisagem duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica de muitas gerações de trabalho humano. Ora, estes homens e as suas obras levam Torga a revoltar-se contra a Divindade Transcendente a favor da imanência: para ele, só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração: (hinos aos deuses, não/os homens é que merecem/que se lhes cante a virtude/bichos que cavam no chão/actuam como parecem/sem um disfarce que os mude).
Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: na sua condição omnisciente é-lhe muito fácil ser virtuoso, e enquanto ser sobrenatural não se lhe opõe qualquer dificuldade para fazer a Natureza - mas o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à Natureza, como os trabalhadores rurais trasmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras. E é essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a Natureza mau grado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, ao ver de Torga fazem do homem único ser digno de adoração.
Considerado por muitos como um avarento de trato difícil e carácter duro, foge dos meios das elites pedantes, mas dá consultas médicas gratuitas a gente pobre e é referido pelo povo como um homem de bom coração e de boa conversa.
Torga era conhecido popularmente nos meios intelectuais de Coimbra como o rei dos chatos.

Prosa
• 1931 - Pão Ázimo.
• 1931 - Criação do Mundo.
• 1934 - A Terceira Voz.
• 1937 - Os Dois Primeiros Dias.
• 1938 - O Terceiro Dia da Criação do Mundo.
• 1939 - O Quarto Dia da Criação do Mundo.
• 1940 - Bichos.
• 1941 - Contos da Montanha."Diário I"
• 1942 - Rua.
• 1943 - O Senhor Ventura. "Diário II"
• 1944 - Novos Contos da Montanha.
• 1945 - Vindima.
• 1946 - "Diário III".
• 1949 - "Diário IV".
• 1951 - Pedras Lavradas. "Diário V".
• 1953 - "Diário VI".
• 1956 - "Diário VII".
• 1959 - "Diário VIII".
• 1964 - "Diário IX".
• 1968 - "Diário X".
• 1973 - "Diário XI".
• 1974 - O Quinto Dia da Criação do Mundo.
• 1976 - Fogo Preso.
• 1981 - O Sexto Dia da Criação do Mundo.
• 1982 - Fábula de Fábulas.

Peças de teatro
• 1941 - "Terra Firme" e "Mar".
• 1947 - Sinfonia.
• 1949 - O Paraíso.
• 1950 - Portugal.
• 1955 - Traço de União.

Traduções
Livros seus estão traduzidos para diversas línguas, algumas vezes publicados com um prefácio seu: espanhol, francês, inglês, alemão, chinês, japonês, croata, romeno, norueguês, sueco, holandês, búlgaro.

Prémios
O Wikiquote tem uma colecção de citações de ou sobre: Miguel Torga.
• 1969 - Prémio do Diário de Notícias.
• 1976 - Prémio Internacional de Poesia de Knokke-Heist.
• 1980 - Prémio Morgado de Mateus, ex-aecquo com Carlos Drummond de Andrade.
• 1981 - Prémio Montaigne da Fundação Alemã F.V.S..
• 1989 - Prémio Camões.
• 1991 - Prémio Personalidade do Ano.
• 1992 - Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.
• 1993 - Prémio da Crítica, consagrando a sua obra.

Lenda da Povoação de Agarez


Hoje, na hora do conto, o pai da Beatriz esteve na nossa sala para nos contar a história "A Lenda da Povoação de Agarez". Depois de falarmos sobre a história, o pai da Beatriz teve a gentileza de nos oferecer uns chupas que nos deixaram muito contentes.




A Lenda da Povoação de Agarez

Relacionada com a Serra do Alvão, cenário das lendas, O Calhau do Encanto e As Picaretas de Oiro, existe uma outra que se refere à origem, nome e actividade dos habitantes de Agarez.
Agarez é uma risonha e soalheira aldeia, situada nas fraldas da Serra do Alvão, a cerca de oito quilómetros de Vila Real. Foi notável pelo artesanato do linho que os seus moradores cultivavam, teciam e bordavam primorosamente.
A imaginação que ajudou a criar os caprichosos desenhos dos seus bordados ajudou também a criar a curiosa lenda que nos explica a sua génese.
Em tempos muito remotos, no mesmo lugar em que se encontra o actual povo de Agarez, havia um outro chamado Aragonês, nome que lhe fora dado pelos seus fundadores, originários do Reino de Aragão.
Quando estes lá chegaram, construíram as primeiras casas e começaram a surribar as terras arenosas e a cultivar o milho que era o prato forte da sua alimentação.
Um dia, no decorrer desta faina, encontraram, com espanto e alegria, um largo filão de oiro que parecia não ter fim. Abandonaram logo os trabalhos agrícolas para se entregarem, com avidez, à exploração do precioso metal que iam amontoando nos canastros do milho.
Depois de terem enchido os canastros, entenderam que era muito arriscado guardar ali tão valioso tesouro e decidiram levá-lo para a serra e escondê-lo debaixo da areia.
Fizeram, para isso, grandes dunas, com galerias interiores, e trataram de o transportar para lá em carros de bois.
Quando andavam naquela freima, passou lá o Diabo que, ouvindo o estridente chiar, se aproximou, curioso, e parou, agachado atrás dos arbustos. Arregalou bem os olhos e pôs-se à escuta:
- E se alguém descobre o oiro? – pergunta um.
- O Diabo seja surdo – respondem os outros em coro.
- E se alguma enxurrada leva a área? – lembra outro.
- Cruzes, canhoto! - vociferam os restantes.
- Não, se Deus quiser, não vai acontecer nada disto – concordaram todos.
De repente, um dos sacos rompeu-se e as pepitas espalharam-se pela encosta.
- Rais part’ó Diabo! – praguejou alguém.
Ao ouvir isto, o Diabo afinou, perdeu a paciência e não quis ouvir mais. Furioso, jurou vingar-se daqueles títeres desprezíveis que o infernizavam com alcunhas e pragas, e, ainda por cima, eram cristãos.
A espumar de raiva, deitando lume pelos olhos, com o rabo entre as pernas, esgueirou-se, sorrateiramente, para não ser notado, a cogitar a maneira de pôr em prática o seu propósito de vingança.
- Haviam de pagar, e com língua de palmo, o atrevimento, ou ele deixaria de ser Diabo.
Então, lembrou-se de que, lá para os lados de Penaguião, havia uma terra chamada Mafómedes, cujos habitantes seguiam a lei de Mafóma que eram, por isso, inimigos figadais dos cristãos.
Estugou o passo e para lá se dirigiu, sem perda de tempo. Com a promessa de lhes entregar um fabuloso tesouro, facilmente convenceu os Mouros a acompanhá-lo. Com o Diabo na dianteira, armados até aos dentes, transpuseram, pela calada da noite, os desfiladeiros do Marão e chegaram a Aragonês, antes do dealbar, quando os Aragoneses dormiam, ainda, a sono solto.
Sem encontrar resistência, mataram todos os cristãos, e destruíram-lhes todas as casas.
Ao romper da manhã, dirigiram-se para o local das dunas à procura do oiro escondido. Mas, quando começaram a revolver a areia que cobria o tesouro, um forte abalo sacudiu a encosta e fez rolar, lá do alto do Alvão, uma cordilheira de penedos que os esmagaram e soterraram, com armas e bagagens.
Daquela hecatombe, escapou apenas o Diabo e um casal mouro que aí se fixou e reconstruiu a povoação à qual deu o nome de Agarez, em memória da sua ascendente Agar, a famosa escrava de Abraão, que deu origem aos Agarenos, seus correligionários.
Os habitantes da nova povoação passaram a dedicar-se à cultura do linho com o qual teciam e bordavam maravilhosos lençóis, cobertas e toalhas, uma arte que os tornou conhecidos e que ainda hoje perdura, embora em menor escala.
É de lá que vêm as cobiçadas peças de linho que embelezam e valorizam a tradicional feira de São Pedro, a vinte e nove de Junho, em Vila Real.
É esse o seu oiro verdadeiro, porque o outro, esse lá continua, inacessível, debaixo dos impenetráveis penedos, bem guardado pelo Génio da Montanha!